O que são as Métricas 7-1-7?
As Métricas 7-1-7 constituem um conjunto simples e objetivo de metas para avaliar a eficácia na Detecção, Notificação e Resposta a emergências em saúde pública. O nome “7-1-7” se refere a três prazos principais:
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Detecção em até 7 dias: o surto deve ser identificado dentro de uma semana após seu surgimento.
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Notificação em 1 dia: depois de detectado, o evento deve ser comunicado imediatamente (em até 24 horas) às autoridades responsáveis.
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Resposta efetiva em até 7 dias: a partir do início da notificação, devem ser implementadas as medidas de controle, diagnóstico e assistência para conter o surto no prazo de sete dias.
A lógica por trás dessas metas é aumentar a velocidade e a qualidade das ações de vigilância e controle de doenças. Ao estabelecer prazos claros, é possível comparar o desempenho entre diferentes países ou regiões, localizar pontos críticos que atrasam o controle de surtos e, consequentemente, aperfeiçoar a resposta em saúde pública. Assim, a adoção das Métricas 7-1-7 permite:
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Identificar gargalos e falhas na notificação e investigação de surtos.
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Padronizar comparações entre países e regiões.
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Priorizar investimentos e ações estratégicas para fortalecer a vigilância epidemiológica.
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Promover maior transparência e responsabilização (accountability) na resposta às emergências em saúde.
Qual é a história das Métricas 7-1-7?
As métricas 7-1-7 foram propostas oficialmente em 2021 em um artigo publicado na revista The Lancet, [Frieden TR, Lee CT, Bochner AF, Buissonnière M, McClelland A. 7-1-7: an organising principle, target, and accountability metric to make the world safer from pandemics. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)01250-2].
Embora sua concepção tenha sido influenciada por lições aprendidas em surtos anteriores, como a epidemia de Ebola (2014–2016) e, principalmente, pela resposta global à pandemia de COVID-19.
O objetivo era criar um marco de avaliação simples, de fácil memorização e aplicação, semelhante ao que ocorreu, por exemplo, com as metas 90-90-90 para o HIV.
Como foram criadas?
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Análise de falhas e sucessos: Os autores estudaram modelos de avaliação de capacidades (como o Joint External Evaluation e o Global Health Security Index), identificando que faltava um indicador direto de desempenho e rapidez na detecção e resposta.
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Inspiração em metas globais: A ideia de usar prazos curtos (7 dias para detecção, 1 dia para notificação, 7 dias para uma resposta efetiva) surgiu como forma de estabelecer um padrão mundial de velocidade e efetividade no controle de surtos, em lugar de indicadores apenas de estrutura e capacidade.
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Avaliações retrospectivas: A proposta também se baseou em estudos sobre o tempo de detecção e resposta a vários surtos, especialmente em países africanos, onde se conseguiu reduzir significativamente o intervalo entre o surgimento e a identificação de surtos.
Modelo 7-1-7 no SUS: Aplicação Prática nos Níveis Nacional, Estadual e Municipal
O modelo 7-1-7 é um marco estratégico para fortalecer a resposta às emergências em saúde pública no Sistema Único de Saúde (SUS). Sua simplicidade permite avaliar a eficiência da detecção, notificação e resposta a surtos e epidemias, identificando gargalos e melhorando a tomada de decisão.
O conceito é direto:
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7 dias para detectar um evento de saúde pública;
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1 dia para notificar os órgãos competentes;
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7 dias para iniciar a resposta efetiva ao evento.
Para compreender sua aplicação, vejamos um exemplo prático: um surto de dengue em uma capital brasileira, abordando as ações nos níveis nacional, estadual e municipal.
Nível Nacional
No Ministério da Saúde, seja no Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS) ou em alguma área técnica, a meta 7-1-7 pode ser aplicada no monitoramento nacional de surtos, epidemias e eventos de saúde pública de interesse e que apresentam risco para a saúde coletiva.
📌 Exemplo: O sistema de informação do SUS (SINAN, SIVEP-Dengue, e-SUS Notifica) detecta a alteração no padrão epidemiológico ou identifica notificações de aumento de casos de dengue em três estados diferentes. A partir disso:
✅ Detecção (7 dias) – O Ministério da Saúde analisa os dados e identifica um padrão incomum de crescimento de casos, com aumento nas taxas de hospitalização.
✅ Notificação (1 dia) – O COE Nacional emite um alerta para as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde e mobiliza especialistas para avaliar a situação.
✅ Resposta (7 dias) – São ativadas ações de resposta: envio emergencial de insumos (soros, kits de diagnóstico), liberação de recursos para reforço na assistência e ampliação de campanhas de prevenção e controle do vetor.
Nível Estadual
As Secretarias Estaduais de Saúde desempenham um papel essencial na coordenação e no apoio técnico e logístico às cidades afetadas.
📌 Exemplo: O estado percebe um aumento nos casos de dengue em várias cidades, e a aplicação do 7-1-7 permite:
✅ Detecção (7 dias) – Monitoramento das notificações pelos sistemas estaduais e verificação do aumento de internações e óbitos suspeitos.
✅ Notificação (1 dia) – O Estado comunica o surto ao COE Nacional e emite notas técnicas para as Secretarias Municipais, orientando sobre o manejo clínico e intensificação da vigilância epidemiológica.
✅ Resposta (7 dias) – Mobilização de equipes de apoio, realização de treinamentos rápidos para profissionais de saúde, ativação de brigadas de combate ao Aedes aegypti e intensificação da borrifação espacial em áreas críticas.
Nível Municipal
Os municípios são os principais responsáveis pela execução das ações diretas na Atenção Primária e Vigilância em Saúde.
📌 Exemplo: A Secretaria Municipal de Saúde de uma capital brasileira identifica um aumento de casos em bairros específicos. Com base no modelo 7-1-7:
✅ Detecção (7 dias) – Unidades de Saúde da Família (USFs) registram aumento de atendimentos para casos suspeitos de dengue, e os agentes de endemias identificam focos do mosquito.
✅ Notificação (1 dia) – A Vigilância Epidemiológica municipal notifica os casos ao sistema estadual e federal, solicitando reforço para as ações de controle.
✅ Resposta (7 dias) – Ações são implementadas: mutirões de limpeza, intensificação do monitoramento de criadouros, visitas domiciliares de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) para identificação de casos precoces e ampliação do atendimento em unidades de pronto atendimento (UPAs).
Aplicação do 7-1-7 na Atenção e Vigilância em Saúde
O modelo 7-1-7 permite integrar atenção primária e vigilância em saúde, fortalecendo a resposta rápida e coordenada.
📌 Na Atenção Primária:
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Capacitação dos profissionais para identificar sintomas precoces de doenças emergentes.
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Adoção de protocolos rápidos para notificação de casos suspeitos.
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Integração entre Unidades Básicas de Saúde (UBS) e hospitais para garantir fluxo adequado de atendimento.
📌 Na Vigilância em Saúde:
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Monitoramento contínuo de surtos através dos sistemas de informação.
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Identificação de padrões epidemiológicos que indicam o início de uma epidemia.
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Adoção de medidas de resposta, como vacinação, controle de vetores e mobilização comunitária.